
SERTÃO URBANO: Cartografias de Afeto, Memória e Resistência na Baixada
Vitorino Rodrigues[1]
Inicio meu olhar sobre o espetáculo infanto-juvenil SERTÃO URBANO — com texto e encenação de Alexandre Gomes e montagem da Cia Atores da Fábrica, de Nova Iguaçu (RJ) —, a partir de seu próprio título. O contraditório que carrega o nome da peça já antecipa o jogo que se estabelece na dramaturgia e na cena. Não falo sobre obviedades. Ao contrário, falo do que há de provocativo, de suscitador, de um fio que nos enreda e nos guia pela fábula do espetáculo.

Ao nos depararmos com essa assinatura, somos acolhidos por um diversificado leque de possibilidades sígnicas e sonoras: delineia-se a imagem de um sertão urbanizado; de uma urbe que se deixa atravessar por raízes ancestrais e migratórias na configuração de suas comunidades; e, simultaneamente, de um convite a "ser tão urbano", compreendendo a cidade como corpo diverso e híbrido, onde os indivíduos se reconhecem sob esse signo múltiplo. Diante dessa perspectiva, a montagem opera uma contundente investida contra a visão estigmatizada e generalizada do Nordeste e das periferias. Como nordestino e migrante — nascido em uma zona rural de Demerval Lobão, no Piauí, crescido em Teresina, capital do estado, e hoje residente no Rio de Janeiro —, assistir à peça significou desenhar um mapa mental em perfeita simetria com o desenvolvimento da cartografia dramatúrgica na cena. Nesse sentido, trata-se de uma obra que estabelece um diálogo sensível com a experiência do deslocamento e da territorialidade.
Para além de sua força conceitual, essa cartografia se materializa em uma artesania cênica rigorosa e bem delineada. A dramaturgia textual, valendo-se da metaliteratura, traz narradores-personagens e narradores-figuras do universo popular – em coro ou individualmente – que vivem e comentam a ação dramática. Esse arcabouço literário estabelece uma rica intertextualidade, como a figura do carcará, imortalizada na canção de João do Vale, e a força lendária presentificada pela lenda da Cascavel Encantada. No plano temático, a peça investiga a migração nordestina como força motriz da Baixada Fluminense, situando-se geograficamente entre a citação direta a Duque de Caxias e a espacialidade cênica dos bairros Jardim Paraíso e Buraco do Boi, em Nova Iguaçu. Essa fusão cultural pulsa também na sonoridade da prosódia dramatúrgica, nas canções entoadas pelo elenco e nos sons gerados por seus corpos, adereços e materiais reciclados. Orquestrada por Bruno Medsta, a concepção musical resulta em um hibridismo transcultural que costura xote, baião e cordel ao rap e ao hip-hop, operando como os próprios fuxicos da cortina de fundo: um mosaico onde sertão e urbe dialogam como forças multiculturais.
Essa mesma lógica de mosaico estende-se para a visualidade do espetáculo. O cenário, assinado por Alessandra Fernandes — que também concebe os figurinos —, é um dispositivo modular composto por placas que, isoladas, representam a Baixada e, unidas, formam o mapa do Nordeste, transformando-se ainda em ônibus. O espaço é complementado por uma cortina de fuxico, e ambos os elementos servem como suporte para a projeção de animações com sombras. O jogo cênico se torna instigante na diferenciação desses suportes: enquanto a cortina de fuxico abriga os intérpretes — revelando apenas suas silhuetas, embora a direção opte por deixar a execução do efeito sutilmente visível —, as placas escancaram a teatralidade do processo. Quando projetada no cenário modular, a engrenagem se expõe por completo: o público vê, em primeiro plano, os atuantes manipulando os elementos e, em segundo, as sombras que dão visualidade à narrativa, especialmente na figuração dos animais citados. Os figurinos e as demais materialidades cênicas acompanham essa proposta, constituindo-se também a partir desse mosaico de retalhos em sua composição.

Essa visualidade da cena ganha extensão nos corpos do elenco, formado por Ana Portela, Letícia Esteves, Liv Olivier, Le Felipe e Iza Pereira. Os intérpretes se dividem em cena ao dar vida a artistas populares que vestem suas personas (como a avó, a vendedora, o rapper, o encanador, as crianças e a Dona Guiné), com exceção da figura da neta, Laura. Ela é a única que permanece sob a mesma persona do início ao fim, conduzindo toda a fábula como uma personagem rapsódica. À medida que guia o fio narrativo, Laura relata uma história que se constitui enquanto avança — à semelhança dos fuxicos, que dão materialidade às cortinas, aos figurinos e às próprias personagens, configurando corporalidades híbridas cheias de potências sertanejas e urbanas.
A relevância profunda dessa hibridização reside na recusa categórica da peça em operar pelos binarismos fáceis que historicamente reduzem as margens sociais. O espetáculo realiza um duplo movimento de desmistificação. Por um lado, exalta a potência e a sabedoria desses territórios: desconstrói o Nordeste sob a ótica exclusiva da miséria, apresentando uma epistemologia nascida da natureza, e ressignifica a própria comunidade a partir da recuperação histórica do termo 'favela' (originalmente uma planta), transformando espaços estigmatizados em locais de solidariedade, alegria e cura. Por outro lado, a montagem evita o perigo da romantização ou exotização ao tensionar a realidade crua de ambos os contextos: a celebração da cultura não anula a denúncia social, expressa tanto no isolamento e na falta de saneamento básico na Baixada Fluminense, quanto na urgência da migração forçada no Nordeste — onde famílias são empurradas pela seca e, principalmente, pela escassez histórica de investimentos que garantam uma sobrevivência digna na região de origem.
Toda essa densidade política e conceitual ganha vida no plano das atuações, onde o elenco equilibra sob medida emoção e distanciamento. Ao evidenciarem a teatralidade por meio de comentários de cena, os atores não anulam o frescor da emoção; antes, convocam a plateia a participar do jogo cênico de maneira espontânea. Não se trata de uma manipulação catártica, mas sim da construção de uma rede de acolhida e reciprocidade entre atuantes e público, intermediada pelo uso inteligente do improviso e de brincadeiras populares. A engenhosidade das placas-mapa que se convertem em ônibus dialoga diretamente com a condição do passante, do migrante em eterno movimento. A cortina de fuxico, por sua vez, funciona como o amálgama visual dessa costura entre o Nordeste e a Baixada Fluminense, simbolizando a união e o fortalecimento mútuo de materialidades que, juntas, resistem à opressão urbana. O diálogo dessas texturas com a iluminação engendra um teatro de animação refinado, que amplia as camadas poéticas da montagem.
Em suma, SERTÃO URBANO consolida-se como um acontecimento teatral de profunda potência, capaz de unificar a pesquisa de linguagem à urgência temática. Ao cruzar as narrativas da periferia fluminense com a herança ancestral nordestina — costurando o rap ao cordel e a ressignificação de materiais reciclados à beleza do fuxico —, a montagem não apenas documenta a transculturalidade do território, mas legitima a dignidade estética das corporalidades e saberes populares. Trata-se de um olhar crítico e afetivo indispensável para a compreensão das cartografias humanas que desenham as metrópoles contemporâneas.
[1] Ator, dramaturgo, produtor cultural, pesquisador piauiense, licenciado em Letras Português pela Universidade Federal do Piauí - UFPI e especialista em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI. É doutorando e mestre em artes cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro - UNIRIO.








